DOR COMO COMBUSTÍVEL

Em julho de 2023, resolvi correr a Ultramaratona de 24 horas de Indaiatuba. Eu já era atleta, treinava bem e encarava provas longas de montanha, mas nada que se aproximasse de uma ultramaratona nesse formato.

Na real, meus treinos eram voltados para provas de até 50 km em trilhas. E nos meses que antecederam a prova, eu estava mais focado na musculação do que na corrida. Tinha acabado de voltar do alistamento no Exército Francês e queria recuperar a massa muscular.

A ideia de correr essa prova surgiu em Suzano, durante uma corrida de 30 km em uma pista de 400 metros. Um amigo comentou sobre a ultra e, de cara, eu me interessei. O desafio me pegou de jeito. Mas eu não fazia ideia da pedrada que vinha pela frente.

Treinei alguns dias por semana, mas nada específico. Corria cerca de 4 vezes por semana, uns 10 km por treino, e no fim de semana mandava uma média de 21 km. Só isso.

Como já tinha passado por provas que testaram meu mental e o ego, achei que essa prova não seria tão dura. Achei que conseguiria correr bem durante 24 horas, mesmo sem estar devidamente preparado. Subestimei.

A largada veio. Olhei pro lado e vi atletas experientes, com estratégia, estrutura e quilometragem absurda no currículo. E aí caiu a ficha: eu tinha me metido numa enrascada. Nas primeiras horas, corri num ritmo bom, sem forçar. Com 10 horas de prova, eu já tinha percorrido 80 km. E aí… começou o caos.

Quando deu por volta das 22h, o frio chegou com tudo. O sol já tinha torrado o corpo o dia todo, e agora o frio vinha com vingança. E junto com ele, a dor.

Meus pés estavam destruídos. Literalmente. Isso era por volta da meia-noite. Eu mal conseguia pisar. As bolhas ardiam. As panturrilhas gritavam.

À 1h da manhã, precisei parar. Trocar o tênis. A cena foi essa da foto (anexa):

Momento da troca de tênis às 1h da manhã. Eu não conseguia nem me abaixar sozinho.

A fisioterapeuta da minha equipe fez massagem nas panturrilhas. Eu não conseguia abaixar pra tirar o tênis. Precisei de ajuda pra colocar as meias, amarrar os cadarços. Um adulto, atleta, que mal conseguia mexer o próprio corpo.

Eu terminei essa prova me arrastando. Corpo destruído. Mente fortalecida.

Antes da prova, muita gente que não vive esse universo disse que era loucura. Que eu não conseguiria.
Pois bem: terminei em pé. Correndo. Com os pés estourados, panturrilha machucada, bolhas pulsando e um frio cortante.
Mas entreguei mais de 110 km.

E a lição que ficou foi clara:

A dor não é o fim. A dor é o caminho. A dor é combustível.


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